"Whenever my train of thought becomes self-conscious,
you become its conductor."                      
~ G.N.            
      Não me tirem a caneta, o branco do papel. As gramas e os quilos já se me vão, lembram-me do enorme peso que pode ter o vazio. Deito-me com minhas incontáveis fomes, com a fome se lida bem deitado, fito o teto a postergar meu encontro com o caderno, pareceu mesmo ter sido boa ideia trazê-lo, ou então a boa ideia é trazê-lo à utilidade quando a preguiça, disfarçada na brancura incompleta do referido teto, exceto pelo movimento do ventilador, que se esforça em apaziguar o calor, e como o calor traz a preguiça!, também a traz a fome, mas voltemos à preguiça, que disfarça o maelstrom de pensamentos, que se disfarça em posição de defunto em caixão, só que em cama, mais ainda não é hora para o caderno, a preguiça se deixa vencer pela varanda.
      O cigarro em minha boca se acende muito antes da cidade, mas que cidade, não há tal coisa, não há vida, não há nada, só eu e o cigarro em minha boca, há também mais coisas que serão, por um lado mas não por outro, injustamente omitidas, pois, naquele momento, ainda estavam verdadeiramente, mas não sinceramente, esquecidas, e o papel ainda não me tinha chegado às mãos. De fato, pensamentos podem seguir caminhos bastante injustos. Mas cadê a vida, eis a vida, está lá o movimento, está lá aquele ser a provar sua capacidade de viver enquanto ela não se esvai, uma minhoca a se contorcer no chão de concreto, os musgos que o cobriam não eram úmidos o bastante, indecisa entre impedir que as formigas antecipassem o inevitável ou lutar por sua vida, não se sabe ao certo por quê, talvez nem ela, ou ele, dado o hermafroditismo das minhocas, acho melhor tratarmos-lhe no masculino, encaixa-se melhor na cena. Pois então, ele lá estava a morrer, a se contorcer, por ora parecia tentar manter todos os seus segmentos próximos uns dos outros, toda a sua água próxima de toda sua vida, por outra parecia estar querendo torcer-se tal qual camiseta em mão de lavadeira, assim já não precisaria das formigas, mas eis que surge o gato a fitar a minhoca, aliás, o minhoca, mas talvez seja já um bom momento para nos valermos novamente do hermafroditismo e torná-la feminina, pois que seja, o gato, é nele que paramos, a fitar a minhoca, com certeza ao intuito de devorá-la, ou brincar-lhe o precadáver, afinal em gatos não se pode confiar, são traiçoeiros, dizem, mas por acaso não o são os humanos, mas por que raios estou pensando em minhocas, de fato estou pensando, mas não é certo isso, deveria estar pensando eu em você, finalmente penso, meus pensamentos chegaram aonde deveriam estar, a tornar imperfeitos meu momentos perfeitos com as minhocas, meu cigarro acabou.
      Separo-me de meu caderno, a esse ponto não havia podido terminar a escrever sobre as minhocas. A cada hiato de conversação, e como é difícil excluir-te dos exemplos, mesmo assim o faço, a cada fôlego, lá está você a me invadir, estuprando minha mente submissa que goza em culpa, quebrando meus chãos e meus paradigmas, mas que faria eu com eles, nada, mais nada. Mas eis que retorna a fome, eis que retorna a preguiça, e com elas o cansaço, o peso das pálpebras e da lombar, não podia aqui me pôr na horizontal, e eis que você volta a vencer todos eles e que eu te puxo para perto e que eu te expulso e que eu deixo a fome vencer, ela venceu porque quis e podia vencer, ah, você fica para depois, e agora eu sei que você volta na passarela.
      Pois então à passarela, até lá não importa, talvez importe, mas vou dizer aqui que não, a preguiça já passou, então não importa mesmo, portanto à passarela, à segunda passagem por ela se eu quiser ser mais preciso, enquanto eu inventava vertigens, não tão inventadas, o cansaço era verdadeiro, mas a real razão da invenção das vertigens foi a crença de que você apareceria a cruzar comigo na passarela, tão no meio do nada, de tudo, e daquela fronteira que tão bem conhecemos, você a cruzar comigo sobre ela a me socorrer, como são tolas as cabeças vazias, como sou tolo eu, e não minha cabeça, que está longe de estar vazia. Desisto, a ideia é deveras tola, óbvio que é, você não viria aqui me caçar, se é que seria interesse seu me caçar, de fato não é, mas é claro que é, a quem quero enganar, a mim, a mim não, mas na neurose sempre há espaço para a dúvida e para a incerteza, a dúvida é um medo, um desejo. Mas eis que finda a passarela, cá estou ao chão, talvez não, não importa, tudo tem muitos sentidos, de volta ao chão, mundo estranho, inóspito aos pudores, terra natal da perversão, talvez perversão seja um nome errado, perversão também aos pudores, neurose liberal, mas e eu que sou fraco, o que será da minha vida, não posso defendê-la, a seleção que me manteve vivo até hoje nada tem de natural, é a niilista, abominável, mas não hei de morder a mão que me alimenta, tampouco daria minha vida pela causa, e então as vertigens se potencializam em assassinato, o meu próprio, há de passar por aqui alguém que não vá com a minha cara, ele não é daqui, não sou de lugar nenhum, responderia e de que adiantaria, que posso eu com os tiros, nada, posso morrer, eu bem me lembro que cá você não estaria a me proteger, eu realmente acredito que você poderia, então que me vá a bala à cabeça, morte rápida, mas me apetece mais a lenta, que eu tenha chance!, ah, e a última chance tem sempre maior valor, um tiro no peito que me deixe acordado à morte certa, e que eu possa me arrastar e rastejar até o telefone que eu não tenho agora, e se não tiver forças grito socorro, socorro, não, não preciso de ambulância, um telefone, é só o que peço, tenho certeza, seu número eu já sei de cabeça, poderia então dizer, você nunca esqueceria, eu te amo.
      O tiro não veio, a passagem já foi comprada, comprada contra o sentido que eu desejo, tudo bem, nem tanto, mas há de esperar, muito já se esperou, nosso tempo é infinito, isso não sei se é bom, só sei que o é. E aquele último telefonema, aquela frase tão famosa, que dessa vez tornar-se-ia inquestionável, pobre ilusão, apenas se propõe a substituir a última jura que lhe fiz, ah!, aquela, tão insegura, aparentemente vazia, mas vazia ela não foi, talvez insegura de fato, muito o sou, porém verdadeira, verdadeira como a própria verdade não o é, nada jamais me sairia da boca com tanta vida se um dia tal ligação viesse a ocorrer.
      Duas grandes vitórias, uma pequena derrota. Você me visita. As palavras pensadas encontram no tempo as palavras escritas. Você me visita, eu sorrio. Você me visita, eu te espero...