Sexta-feira, Maio 22, 2009

Constelando...

Estou livre
num campo aberto
Gravidade invertida
Caí no espaço
Saí do tempo
Estou à deriva

Conjugo números
Multiplico verbos
Alma de criança
Balé violento
Corpo de criança
vivo, vivo, vivo...
Empinando a Cruzeiro do Sul e correndo atrás da noite...

Sexta-feira, Abril 24, 2009

Desencontros

Vazio, oco
Devo estar louco
Estou cheio
Partido ao meio
Sem freio

Vazio, incompleto
Quero chão, parede, teto
Aberto, aberto...
Não sei ao certo

Quero você à máxima potência
negativa
Besta vingativa
Raiva, dor, violência

Seu presente, eu guardei
Vida corroída, ferrugem
Tédio sem estrela, sem lua
Dia nublado sem nuvem

Nossos astros colidem
Você sol, eu lua
Carne nua
Você mão, eu luva
Voamos sobre a rua
Você vento, você nuvem,
eu chuva
I gave them many reasons to love me... Well, then I made them choose otherwise.

Quinta-feira, Janeiro 15, 2009

Maquinista


"Whenever my train of thought becomes self-conscious,
you become its conductor."                      
~ G.N.            

      Não me tirem a caneta, o branco do papel. As gramas e os quilos já se me vão, lembram-me do enorme peso que pode ter o vazio. Deito-me com minhas incontáveis fomes, com a fome se lida bem deitado, fito o teto a postergar meu encontro com o caderno, pareceu mesmo ter sido boa ideia trazê-lo, ou então a boa ideia é trazê-lo à utilidade quando a preguiça, disfarçada na brancura incompleta do referido teto, exceto pelo movimento do ventilador, que se esforça em apaziguar o calor, e como o calor traz a preguiça!, também a traz a fome, mas voltemos à preguiça, que disfarça o maelstrom de pensamentos, que se disfarça em posição de defunto em caixão, só que em cama, mais ainda não é hora para o caderno, a preguiça se deixa vencer pela varanda.
      O cigarro em minha boca se acende muito antes da cidade, mas que cidade, não há tal coisa, não há vida, não há nada, só eu e o cigarro em minha boca, há também mais coisas que serão, por um lado mas não por outro, injustamente omitidas, pois, naquele momento, ainda estavam verdadeiramente, mas não sinceramente, esquecidas, e o papel ainda não me tinha chegado às mãos. De fato, pensamentos podem seguir caminhos bastante injustos. Mas cadê a vida, eis a vida, está lá o movimento, está lá aquele ser a provar sua capacidade de viver enquanto ela não se esvai, uma minhoca a se contorcer no chão de concreto, os musgos que o cobriam não eram úmidos o bastante, indecisa entre impedir que as formigas antecipassem o inevitável ou lutar por sua vida, não se sabe ao certo por quê, talvez nem ela, ou ele, dado o hermafroditismo das minhocas, acho melhor tratarmos-lhe no masculino, encaixa-se melhor na cena. Pois então, ele lá estava a morrer, a se contorcer, por ora parecia tentar manter todos os seus segmentos próximos uns dos outros, toda a sua água próxima de toda sua vida, por outra parecia estar querendo torcer-se tal qual camiseta em mão de lavadeira, assim já não precisaria das formigas, mas eis que surge o gato a fitar a minhoca, aliás, o minhoca, mas talvez seja já um bom momento para nos valermos novamente do hermafroditismo e torná-la feminina, pois que seja, o gato, é nele que paramos, a fitar a minhoca, com certeza ao intuito de devorá-la, ou brincar-lhe o precadáver, afinal em gatos não se pode confiar, são traiçoeiros, dizem, mas por acaso não o são os humanos, mas por que raios estou pensando em minhocas, de fato estou pensando, mas não é certo isso, deveria estar pensando eu em você, finalmente penso, meus pensamentos chegaram aonde deveriam estar, a tornar imperfeitos meu momentos perfeitos com as minhocas, meu cigarro acabou.
      Separo-me de meu caderno, a esse ponto não havia podido terminar a escrever sobre as minhocas. A cada hiato de conversação, e como é difícil excluir-te dos exemplos, mesmo assim o faço, a cada fôlego, lá está você a me invadir, estuprando minha mente submissa que goza em culpa, quebrando meus chãos e meus paradigmas, mas que faria eu com eles, nada, mais nada. Mas eis que retorna a fome, eis que retorna a preguiça, e com elas o cansaço, o peso das pálpebras e da lombar, não podia aqui me pôr na horizontal, e eis que você volta a vencer todos eles e que eu te puxo para perto e que eu te expulso e que eu deixo a fome vencer, ela venceu porque quis e podia vencer, ah, você fica para depois, e agora eu sei que você volta na passarela.
      Pois então à passarela, até lá não importa, talvez importe, mas vou dizer aqui que não, a preguiça já passou, então não importa mesmo, portanto à passarela, à segunda passagem por ela se eu quiser ser mais preciso, enquanto eu inventava vertigens, não tão inventadas, o cansaço era verdadeiro, mas a real razão da invenção das vertigens foi a crença de que você apareceria a cruzar comigo na passarela, tão no meio do nada, de tudo, e daquela fronteira que tão bem conhecemos, você a cruzar comigo sobre ela a me socorrer, como são tolas as cabeças vazias, como sou tolo eu, e não minha cabeça, que está longe de estar vazia. Desisto, a ideia é deveras tola, óbvio que é, você não viria aqui me caçar, se é que seria interesse seu me caçar, de fato não é, mas é claro que é, a quem quero enganar, a mim, a mim não, mas na neurose sempre há espaço para a dúvida e para a incerteza, a dúvida é um medo, um desejo. Mas eis que finda a passarela, cá estou ao chão, talvez não, não importa, tudo tem muitos sentidos, de volta ao chão, mundo estranho, inóspito aos pudores, terra natal da perversão, talvez perversão seja um nome errado, perversão também aos pudores, neurose liberal, mas e eu que sou fraco, o que será da minha vida, não posso defendê-la, a seleção que me manteve vivo até hoje nada tem de natural, é a niilista, abominável, mas não hei de morder a mão que me alimenta, tampouco daria minha vida pela causa, e então as vertigens se potencializam em assassinato, o meu próprio, há de passar por aqui alguém que não vá com a minha cara, ele não é daqui, não sou de lugar nenhum, responderia e de que adiantaria, que posso eu com os tiros, nada, posso morrer, eu bem me lembro que cá você não estaria a me proteger, eu realmente acredito que você poderia, então que me vá a bala à cabeça, morte rápida, mas me apetece mais a lenta, que eu tenha chance!, ah, e a última chance tem sempre maior valor, um tiro no peito que me deixe acordado à morte certa, e que eu possa me arrastar e rastejar até o telefone que eu não tenho agora, e se não tiver forças grito socorro, socorro, não, não preciso de ambulância, um telefone, é só o que peço, tenho certeza, seu número eu já sei de cabeça, poderia então dizer, você nunca esqueceria, eu te amo.
      O tiro não veio, a passagem já foi comprada, comprada contra o sentido que eu desejo, tudo bem, nem tanto, mas há de esperar, muito já se esperou, nosso tempo é infinito, isso não sei se é bom, só sei que o é. E aquele último telefonema, aquela frase tão famosa, que dessa vez tornar-se-ia inquestionável, pobre ilusão, apenas se propõe a substituir a última jura que lhe fiz, ah!, aquela, tão insegura, aparentemente vazia, mas vazia ela não foi, talvez insegura de fato, muito o sou, porém verdadeira, verdadeira como a própria verdade não o é, nada jamais me sairia da boca com tanta vida se um dia tal ligação viesse a ocorrer.
      Duas grandes vitórias, uma pequena derrota. Você me visita. As palavras pensadas encontram no tempo as palavras escritas. Você me visita, eu sorrio. Você me visita, eu te espero...

Terça-feira, Março 18, 2008

Falta muito?

Essa novela está chata, maçante. Logo desperta a pergunta: "Falta muito para acabar?"

Eu não consigo parar de acreditar na tola ilusão de que daqui a alguns capítulos essa novela se tornará mais interessante e agradável de se assistir. É isso, e somente isso, que me impede de desligar a televisão. Mas...

O que mais há para se fazer apenas com impressões e uma neurose obsessiva?

Quarta-feira, Março 12, 2008

CPR III

Sem mais niilismos... quem eu quero enganar? Vamos morrer quando você quiser que a gente morra. Às vezes acho que você pode pensar o mesmo, que sou eu o dono desse poder - ou talvez você simplesmente ainda não queira.

Mas que história é essa? Com certeza é uma que eu nunca entendi, um trabalho conjunto do Lynch com o Aronofsky, ambos sob crises severas de esquizofrenia. Um filme sem personagens, mas com dois protagonistas, apenas um coadjuvante e inúmeros figurantes. Reitero, sem personagens; onde apenas o irracional contracena com o ilógico, compondo em estranhas palavras um roteiro dadaísta - e tudo faz sentido, embora fuja à cognição.

Tal como Mrs. Dalloway, nossa limitação temporal nunca nos impediu de ter uma vida completa. Mas o ponto final se disfarçou em reticências; foi necessário apenas um pequeno esforço insincero.

Humildemente, assumo: não sei. Aonde vamos? Onde nos escondemos? Que desculpas inventaremos? Quem somos nós? Ah, essa eu posso responder; eu lembro, você me falou...

- Prazer, Gabriel...

Segunda-feira, Março 03, 2008

Ping?

A angústia bate. Imagino minha lista telefônica e a percorro na tentativa de encontrar um nome que possa me salvar - em vão.

Jogo-me em potenciais suportes e sou capaz de idealizá-los. Sou incapaz, porém, de abrir minha vida e de me sentir seguro a ponto de fazer as minhas catarses. Não é falta de confiança; é apenas uma leitura do pensamento do receptor, correta ou não. Quando narro minhas trivialidades incomuns, leio um "hopeless..." disfarçado em risinhos tímidos. Em contrapartida, quando me esforço e consigo me aprofundar em mim mesmo, leio um "it's none of my business".

Minha vida e eu: nós somos chatos, entediantes e não atraímos o interesse alheio. As gotas da chuva ácida que trazem esse choque de realidade corroem agressivamente a alma daquela patética criança que acreditava ter um futuro magnânime, grandioso e infinito - ela era imortal, agora é máquina.

Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008

CPR II

Em menos de uma semana, um pequeno movimento aleatório que você fez durante o sono foi suficiente para prolongar nossas vidas em alguns dias. Desesperado e cheio de dúvidas, respondi; você não ouviu.

Em menos de uma semana, meu instinto paterno está falando mais alto e quer voltar à massagem cardíaca. Mas, exatamente porque é um instinto paterno - e não materno -, o orgulho é mais forte e possui ação coibitiva.

É este último personagem - o orgulho -, que vai estar de pé, forte e austero, nos olhando com raiva, tristeza e decepção, enquanto termina por mutilar nossas vidas e chora em harmonia com nossos últimos suspiros sufocados.

Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008

CPR

Cansei de massagear nossos corações esquecidos...

I'll just let us die.

Domingo, Janeiro 27, 2008

Uma breve retrospectiva numerológica para o futuro

Conversando com uma amiga, sobre a vida, o futuro e outras trivialidades, ela expressou seu medo pelo ano que vem, 2009. Não havendo explicações, intrigou-me o fato de se temer mais o ano de 2009 que o ano de 2010, que já avança na casa das dezenas. Em minha fração nerd, despertou-se uma dúvida despretensiosa: será que 2009 é número primo?

Não era. 7 x 7 x 41 = 2009. Eu poderia ter parado por aí, mas o tédio alimentou minha curiosidade. Será que eu já vivi em algum "ano primo"?

Pro meu espanto, foram até bastantes (e como é feia essa palavra...)! Logo o primeiro ano que eu vivi do início ao fim, 1987, era um número primo. Depois dele, 1993, 1997, 1999 e 2003. Dividi a informação com a minha amiga, e ela perguntou: esses anos foram melhores ou piores que os outros?

Tive que parar para pensar. De 1987, eu definitivamente não lembrava. Também não tenho memórias datadas de 1993. 1997 foi um ano difícil, porém com excelentes frutos, e eu observei o mesmo em 2003. Em 1997, eu entrei no Pedro II, onde eu passei por terríveis momentos em minha vida - não sinto saudades de quando eu estudava lá -, mas foi quando eu conheci a maioria dos meus melhores amigos, muitos dos quais o são até hoje. Em 2003, foi o ano em que me formei no colégio - finalmente!, ótimo momento -, mas também o ano desgastante do meu primeiro vestibular. 1999 também foi outro ano que não tem memórias etiquetadas, exceto pelas diversas profecias apocalípticas que pairavam assombrosamente pelas idéias de pseudo-numerólogos. Mas, obviamente, eu não parei na última pergunta: quando será o próximo "ano primo"?

E a resposta pareceu se encaixar como uma luva na minha linha de raciocínio: 2011 - o ano em que eu vou me formar (quer na metade, quer no fim dele). Comparando 2011 com 1997 e 2003, eu me diverti ao brincar de traçar uma regra: os anos primos na minha vida marcam anos que me exigem um esforço maior, mas trazem bons frutos... e, além disso, são anos que marcam mudanças, como entrar no colégio, me formar em outro, ou, como eu pretendo, me formar na universidade. E, se você pensa que minhas perguntas terminaram, errou ao duvidar do meu tédio: e depois de 2011, qual será o próximo?

2017. 6 anos após eu ter me formado. "Em 2017, eu posso estar terminando o meu mestrado, e aí vai se encaixar na regrinha", comentei casualmente com minha amiga. "Em 2017, eu vou fazer 31 anos! Que medo!", ela respondeu. Eu pensei "nossa, eu também..."

Eu sempre fui bom aluno em matemática... mas como números conseguem ser assustadores!